Ensaio para um tempo longo

Toda uma vida em dédalo; pitando quimeras – matar o desejo para, então, tê-lo. Ou perseguir o desejo para, com ele, poder desejar.

Não saber a carne.

 

***

 

A menina encara um quadro que parece um choque, um acidente, entre dois godês.

Senta. Quer desenhar. A mãe liga a TV.

 

***

 

Chamo de “drible” a escrita sem detalhe, arte ou circunstância.

É o que me sobra: onde a raça se arrisca técnica.

 

***

 

Todo meu desejo é lá.

 

***

 

Na janela, um colibri se arrasta pelo ar, pesado como uma virgem de chumbo. A virgem sangra.

Traz no bico um escaravelho dourado, o pobre pássaro, e bate com ele no vidro. Virulência.

A vizinha reza a Ave Maria, e gotículas de água presas às asas da ave, perpassadas pela luz, tornam-se pequenos arco-íris.

Um casal de namorados trepa no carro do pai da namorada.

A menina fita a folha.

 

***

 

O desejo atravessa o palpável; não pode ser comercializado.

 

***

 

A menina pensa a folha. Primeiro em branco. Depois, insultada por um lápis de cor preto. Linha reta, justa – acento clássico.

Continua. Azul. Linha cortando linha, azul penetrando o preto.

Continua. Vermelho. Mas agora em senos obtusos de curvas concretistas ganhando o espaço em carne, gânglios e cadáveres. Um chiste.

O vermelho é ironia romântica cortando o absoluto abstrato, racional. Mas também autoironia – discute a funcionalidade da sua loucura. Práxis do vermelho corta.

Ela cisma, então: salpicar de amarelos.

 

***

 

(justamente por não conseguirmos o dizer-desejo é que nos vendem tanta coisa)

 

***

 

Esfalfado, o colibri já perde as penas. Nu em seu esforço. Bate com o bico. Bate com o corpo. Bate com as asas. Grita com os olhos.

O escaravelho quase carma brilha fogo fátuo – é fuga.

A namorada diz: “Atola, atola esse caralho.”

A vizinha bebe água benta. Se benze.

Há quanto tempo o trânsito de fugas? Há quanto tempo? Há quanto tempo o tempo invade, estupra o ciclo, e torna a curva traço retilíneo?

O colibri investe, sem sucesso. Mas insiste.

Talvez seja um poeta.

 

***

O amarelo cisca. Na folha toda, risca. Sem medo, sem parar. Parece acaso, mas é caráter.

O amarelo tempera e transa a folha e arranca o sério de toda cor, de toda escolha. Brinca.

Em ângulos de pincel, em arroubos de curvas que parecem traques, refrata o preto, retrata o azul.

No vermelho, é pus.

A menina sorri.

 

***

 

O desejo é reta, horizonte que se move, ou curva, ferida que se cutuca?

 

***

 

Com a buça a namorada abarca, abraça, cada veia do caralho; sente e comanda o cavalo, amazona. Controla cada pulso e saboreia a cabeça a lhe pontear o útero.

O suor excretado misturado com o mel do sexo. O mel do sexo entremeado ao salivar da boca, à língua.

Os lábios da buceta beijam e babam, dália vermelha e lúcida cavalgando um cacete incauto.

Um breve allegro para um cabelo puxado. E dentes.

Alguém bate no vidro.

A vizinha segura o escapulário. Os cômodos, as paredes, os móveis, tudo interpenetra-se, perpassa, qual perfume de acento vário.

Um eco de memória anuncia vícios para o de lá da casa, do passado, da vida.

 

***

 

Falta algo. A folha suspira, enfadada, a beleza do intento da menina.

Belo comum.

Muito belo, mas fútil.

A menina corta um pedaço de seu cabelo ruivo. Cola no canto da folha.

A folha ri. Risada invulgar. Risada de pomba-gira em fim de festa. Vou cantar pra subir, vou dizer meu adeus.

Pega lá o baralho da cigana.

Nosso tempo é o do lema: é belo, é bom, mas não me serve.

A menina vê o colibri.

 

***

 

Talvez nada nos sirva.

Onde lirismo tão ímpio, ridículo, em nossas jornadas tão pífias de sublime, essa saudade do ouro?

 

***

 

As mãos frenéticas da vizinha esfregam-se na saia. Para além do tique de ser, onde sou? Até o azul do céu oprime.

Olhares cruzados – engajados no poros, apoiam-se no tempo antes do tempo, o tempo antes do acontecer.

Todo ritmo tem parada, e a namorada, poetisa, para.

Dois corações gelados se abraçam, nus, revoltos em medo. Nada é mais triste e débil que a nudez, pois esta supõe o encontro. E o encontro, como sabemos, é raro.

Alguém do lado de fora rosna. Ela conhece o tom do berro.

A lei abre a porta do carro e impõe um pai.

 

***

 

O momento neutro de uma diferença: o espaço fora de lugar de uma distância (em dúvidas de símbolos) ou de um espaçamento – retas paralelas que no infinito se cruzam, feixes de carma – que não é possível nem mesmo inscrever no pensamento.

 

***

 

O pai checa todo o automóvel. Rosto fechado, como santo de casa, perscruta a calcular cada gomo de uma equação. Sem falar palavra.

E agora?

Supetão, o pai entra no carro.

Os namorados são cal virgem, calada.

O silêncio é um estigma, e corta; silvo no vento a passear na relva. Escuta-se tudo lá fora, cada segundo. E o tempo então é tão palpável que se torna paciência.

O pai levanta levemente o estofo do banco, e de lá tira um baseado, com a ponta já um tanto gasta.

“Então… Onde vocês pararam?”

 

Movimento e riso e suor e falta de juízo cortam o carro até o cair da noite.

 

***

 

Farta, a menina levanta e abre a janela.

O colibri se entrega, afinal, e deita na mão dela o escaravelho. Deita a cabecinha também, qual soldado a saudar o capitão em fim de batalha.

A menina vê sem olhar, estática, e esmaga o inseto. O colibri suspira.

Agora entende, enfim, e não pode fugir, mesmo se quisesse.

 

***

 

A vizinha entra no quarto, tranca a porta.

Apesar da visível tremedeira, calmamente ajoelha diante de um pequeno altar improvisado, com imagens de variados santos, vasos de flores aos lados, e um Cristo penitente no centro, dividindo espaço com uma resplandecente Maria de túnica dourada.

Ela olha para as imagens e todo o cenário, misturado às lágrimas e ao aroma das flores, não passa de um imenso borrão.

Ela chora.

E reza.

E passa as mãos na saia.

Os movimentos do seu coração suavizam-se a passo e passo, cada vez mais vagos, doces, como tempestade a virar chuva, e chuva, aos poucos, a se tornar garoa.

Um denso vapor rosa domina-lhe o quarto, o corpo, entra pelas narinas, pelo vestido. Sobe pelas pernas e atravessa cada poro. Ela suspira.

Vozes jovens num sussurro.

Eia ergo, Advocata nostra.

Um frêmito.

O Clemens, o Pia…

O corpo desaba.

O dulcis Virgo Maria.

 

 

***

 

Em tudo há quase sempre um pouco de terror.

A parede que protege é a mesma que separa.

 

***

 

Dez dias depois, a vizinha continua ajoelhada, rezando.

 

 

***

 

A mão é seda, mas aperta como malha. O colibri se entrega, se fecha. Fecha os olhos. Sabe que sua beleza mística hoje serve a outro ritual.

A folha pede.

E agora chove.

Movimento rápido, em potência, o pathos: o ato de sua própria realização. A menina arranca a cabeça do colibri. O sangue é utopia em toda parte do papel.

A folha agora vive.

Invulgar.

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Sobre jeffdamn

" D'où vous vient, disiez-vous, cette tristesse étrange / Montant comme la mer sur le roc noir et nu ? "
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