tudo que sei na vida são ossos.

estes ossos que raspam em rútilos de impulso e susto

em cimos de pústulas e insultos.

 

tudo que sei é que meus ossos rangem.

rugem o sol a se pôr de um leão vermelho em rito e ferro e olhar de norte

a cantar o vômito faminto

do cansaço

do escorreito

do homem pobre.

 

o olhar de canto do eremita entoa cada lágrima hieroglífica cravada em curvas nos
meus ossos

e espreita o pêndulo a laçar suspeita qual vermelho dando graças: prece.

 

a calha lamenta em ósculo o ritmo da chuva.

à noite, andrajos, levantei-me; quantas noites mal dormidas?

o leão no espelho ruge em sete runas todos os percalços

dos meus atavismos, todos os brancos dos meus cinismos

todos os meus cansaços.

 

volto à cama e chuva, meu senão mofado.

e tudo que sei é que meus ossos rimam.

como um leão velho e molhado.

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Exercício de criação de personagem – Ritinha

Ocorreu entre uma jogada de cabelo e uma piscadela:

— Vem cá… Xeu falar no teu ouvido…

A mordida veio justa, ataque de cadela acuada, caninos cravados na concha superior da orelha do rapaz que, num empurrão, correu pra longe do ponto de ônibus.
Paloma vestia o top de oncinha e o salto alto combinando, restos do “uniforme” de trabalho, então descaracterizado apenas pelo fato de ela ter retirado a microssaia. Passo o dia com a perna aberta, pensou, não é no meu tempo livre que vou dar asa pra machinho besta.

Foi quando a tez vermelha de raiva embotou-se e, num repente, seus olhos marearam. Papai sempre disse que Paloma é nome de puta. Igual à puta da tua mãe. A tosse seca disfarçou o choro. Na bolsa, pegou um livro recomendado num desses programas matinais apresentados por pessoas que nunca precisaram trabalhar: Os sete ricos hábitos das pessoas muito ricas.
Ela gostou do sabor do sangue. Paloma queria guerra.

Seu nome de guerra era Ritinha.

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Ensaio para um tempo longo

Toda uma vida em dédalo; pitando quimeras – matar o desejo para, então, tê-lo. Ou perseguir o desejo para, com ele, poder desejar.

Não saber a carne.

 

***

 

A menina encara um quadro que parece um choque, um acidente, entre dois godês.

Senta. Quer desenhar. A mãe liga a TV.

 

***

 

Chamo de “drible” a escrita sem detalhe, arte ou circunstância.

É o que me sobra: onde a raça se arrisca técnica.

 

***

 

Todo meu desejo é lá.

 

***

 

Na janela, um colibri se arrasta pelo ar, pesado como uma virgem de chumbo. A virgem sangra.

Traz no bico um escaravelho dourado, o pobre pássaro, e bate com ele no vidro. Virulência.

A vizinha reza a Ave Maria, e gotículas de água presas às asas da ave, perpassadas pela luz, tornam-se pequenos arco-íris.

Um casal de namorados trepa no carro do pai da namorada.

A menina fita a folha.

 

***

 

O desejo atravessa o palpável; não pode ser comercializado.

 

***

 

A menina pensa a folha. Primeiro em branco. Depois, insultada por um lápis de cor preto. Linha reta, justa – acento clássico.

Continua. Azul. Linha cortando linha, azul penetrando o preto.

Continua. Vermelho. Mas agora em senos obtusos de curvas concretistas ganhando o espaço em carne, gânglios e cadáveres. Um chiste.

O vermelho é ironia romântica cortando o absoluto abstrato, racional. Mas também autoironia – discute a funcionalidade da sua loucura. Práxis do vermelho corta.

Ela cisma, então: salpicar de amarelos.

 

***

 

(justamente por não conseguirmos o dizer-desejo é que nos vendem tanta coisa)

 

***

 

Esfalfado, o colibri já perde as penas. Nu em seu esforço. Bate com o bico. Bate com o corpo. Bate com as asas. Grita com os olhos.

O escaravelho quase carma brilha fogo fátuo – é fuga.

A namorada diz: “Atola, atola esse caralho.”

A vizinha bebe água benta. Se benze.

Há quanto tempo o trânsito de fugas? Há quanto tempo? Há quanto tempo o tempo invade, estupra o ciclo, e torna a curva traço retilíneo?

O colibri investe, sem sucesso. Mas insiste.

Talvez seja um poeta.

 

***

O amarelo cisca. Na folha toda, risca. Sem medo, sem parar. Parece acaso, mas é caráter.

O amarelo tempera e transa a folha e arranca o sério de toda cor, de toda escolha. Brinca.

Em ângulos de pincel, em arroubos de curvas que parecem traques, refrata o preto, retrata o azul.

No vermelho, é pus.

A menina sorri.

 

***

 

O desejo é reta, horizonte que se move, ou curva, ferida que se cutuca?

 

***

 

Com a buça a namorada abarca, abraça, cada veia do caralho; sente e comanda o cavalo, amazona. Controla cada pulso e saboreia a cabeça a lhe pontear o útero.

O suor excretado misturado com o mel do sexo. O mel do sexo entremeado ao salivar da boca, à língua.

Os lábios da buceta beijam e babam, dália vermelha e lúcida cavalgando um cacete incauto.

Um breve allegro para um cabelo puxado. E dentes.

Alguém bate no vidro.

A vizinha segura o escapulário. Os cômodos, as paredes, os móveis, tudo interpenetra-se, perpassa, qual perfume de acento vário.

Um eco de memória anuncia vícios para o de lá da casa, do passado, da vida.

 

***

 

Falta algo. A folha suspira, enfadada, a beleza do intento da menina.

Belo comum.

Muito belo, mas fútil.

A menina corta um pedaço de seu cabelo ruivo. Cola no canto da folha.

A folha ri. Risada invulgar. Risada de pomba-gira em fim de festa. Vou cantar pra subir, vou dizer meu adeus.

Pega lá o baralho da cigana.

Nosso tempo é o do lema: é belo, é bom, mas não me serve.

A menina vê o colibri.

 

***

 

Talvez nada nos sirva.

Onde lirismo tão ímpio, ridículo, em nossas jornadas tão pífias de sublime, essa saudade do ouro?

 

***

 

As mãos frenéticas da vizinha esfregam-se na saia. Para além do tique de ser, onde sou? Até o azul do céu oprime.

Olhares cruzados – engajados no poros, apoiam-se no tempo antes do tempo, o tempo antes do acontecer.

Todo ritmo tem parada, e a namorada, poetisa, para.

Dois corações gelados se abraçam, nus, revoltos em medo. Nada é mais triste e débil que a nudez, pois esta supõe o encontro. E o encontro, como sabemos, é raro.

Alguém do lado de fora rosna. Ela conhece o tom do berro.

A lei abre a porta do carro e impõe um pai.

 

***

 

O momento neutro de uma diferença: o espaço fora de lugar de uma distância (em dúvidas de símbolos) ou de um espaçamento – retas paralelas que no infinito se cruzam, feixes de carma – que não é possível nem mesmo inscrever no pensamento.

 

***

 

O pai checa todo o automóvel. Rosto fechado, como santo de casa, perscruta a calcular cada gomo de uma equação. Sem falar palavra.

E agora?

Supetão, o pai entra no carro.

Os namorados são cal virgem, calada.

O silêncio é um estigma, e corta; silvo no vento a passear na relva. Escuta-se tudo lá fora, cada segundo. E o tempo então é tão palpável que se torna paciência.

O pai levanta levemente o estofo do banco, e de lá tira um baseado, com a ponta já um tanto gasta.

“Então… Onde vocês pararam?”

 

Movimento e riso e suor e falta de juízo cortam o carro até o cair da noite.

 

***

 

Farta, a menina levanta e abre a janela.

O colibri se entrega, afinal, e deita na mão dela o escaravelho. Deita a cabecinha também, qual soldado a saudar o capitão em fim de batalha.

A menina vê sem olhar, estática, e esmaga o inseto. O colibri suspira.

Agora entende, enfim, e não pode fugir, mesmo se quisesse.

 

***

 

A vizinha entra no quarto, tranca a porta.

Apesar da visível tremedeira, calmamente ajoelha diante de um pequeno altar improvisado, com imagens de variados santos, vasos de flores aos lados, e um Cristo penitente no centro, dividindo espaço com uma resplandecente Maria de túnica dourada.

Ela olha para as imagens e todo o cenário, misturado às lágrimas e ao aroma das flores, não passa de um imenso borrão.

Ela chora.

E reza.

E passa as mãos na saia.

Os movimentos do seu coração suavizam-se a passo e passo, cada vez mais vagos, doces, como tempestade a virar chuva, e chuva, aos poucos, a se tornar garoa.

Um denso vapor rosa domina-lhe o quarto, o corpo, entra pelas narinas, pelo vestido. Sobe pelas pernas e atravessa cada poro. Ela suspira.

Vozes jovens num sussurro.

Eia ergo, Advocata nostra.

Um frêmito.

O Clemens, o Pia…

O corpo desaba.

O dulcis Virgo Maria.

 

 

***

 

Em tudo há quase sempre um pouco de terror.

A parede que protege é a mesma que separa.

 

***

 

Dez dias depois, a vizinha continua ajoelhada, rezando.

 

 

***

 

A mão é seda, mas aperta como malha. O colibri se entrega, se fecha. Fecha os olhos. Sabe que sua beleza mística hoje serve a outro ritual.

A folha pede.

E agora chove.

Movimento rápido, em potência, o pathos: o ato de sua própria realização. A menina arranca a cabeça do colibri. O sangue é utopia em toda parte do papel.

A folha agora vive.

Invulgar.

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tudo o que tenho são estas mãos

mãos duras a dançar

faísca

de indolência

no susto aberto entre sulco e pista

mãos sem calos mas que gemem

chorando nervos de esfinges quebradiças

ossos de prata frígida

mãos que tremem a fitar o fio do ícone na lama movediça

 

filosofia da finta, a mão fere – alquimia

a cura crítica do riso, o tapa é

um ritmo

nos rostos

insisto

a mão rasga um poema com suas unhas de xisto

 

pobres mãos romanescas…

 

estas mãos de assalto escrevem a duras perdas

meus saltos em surtos de quimeras

duras pedras

e em cada ranço de sim por que passo

cravam a lágrima do meu sonho afiada em aço

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Derrota

Yo que no he tenido nunca un oficio
que ante todo competidor me he sentido débil
que perdí los mejores títulos para la vida
que apenas llego a un sitio ya quiero irme (creyendo que mudarme es una solución)
que he sido negado anticipadamente y escarnecido por los más aptos
que me arrimo a las paredes para no caer del todo
que soy objeto de risa para mí mismo que creí
que mi padre era eterno
que he sido humillado por profesores de literatura
que un día pregunté en qué podía ayudar y la respuesta fue una risotada
que no podré nunca formar un hogar, ni ser brillante, ni triunfar en la vida
que he sido abandonado por muchas personas porque casi no hablo
que tengo vergüenza por actos que no he cometido
que poco me ha faltado para echar a correr por la calle
que he perdido un centro que nunca tuve
que me he vuelto el hazmerreír de mucha gente por vivir en el limbo
que no encontraré nunca quién me soporte
que fui preterido en aras de personas más miserables que yo
que seguiré toda la vida así y que el año entrante seré muchas veces más burlado en mi ridícula ambición
que estoy cansado de recibir consejos de otros más aletargados que yo («Ud. es muy quedado, avíspese, despierte»)
que nunca podré viajar a la India
que he recibido favores sin dar nada en cambio
que ando por la ciudad de un lado a otro como una pluma
que me dejo llevar por los otros
que no tengo personalidad ni quiero tenerla
que todo el día tapo mi rebelión
que no me he ido a las guerrillas
que no he hecho nada por mi pueblo
que no soy de las FALN y me desespero por todas estas cosas y por otras cuya enumeración sería interminable
que no puedo salir de mi prisión
que he sido dado de baja en todas partes por inútil
que en realidad no he podido casarme ni ir a París ni tener un día sereno
que me niego a reconocer los hechos
que siempre babeo sobre mi historia
que soy imbécil y más que imbécil de nacimiento
que perdí el hilo del discurso que se ejecutaba en mí y no he podido encontrarlo
que no lloro cuando siento deseos de hacerlo
que llego tarde a todo
que he sido arruinado por tantas marchas y contramarchas
que ansío la inmovilidad perfecta y la prisa impecable
que no soy lo que soy ni lo que no soy
que a pesar de todo tengo un orgullo satánico aunque a ciertas horas haya sido humilde hasta igualarme a las piedras
que he vivido quince años en el mismo círculo
que me creí predestinado para algo fuera de lo común y nada he logrado
que nunca usaré corbata
que no encuentro mi cuerpo
que he percibido por relámpagos mi falsedad y no he podido derribarme, barrer todo y crear de mi indolencia, mi
flotación, mi extravío una frescura nueva, y obstinadamente me suicido al alcance de la mano
me levantaré del suelo más ridículo todavía para seguir burlándome de los otros y de mí hasta el día del juicio final.

 

Rafael Cadenas (1930- )

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Síntese

Era homem de poucas palavras. Afeito a rotinas. Trabalhava no 3º andar da Fazenda Municipal. Acertos Contábeis. Paletó preto, plácido, gravata cinza. Pausa para o café. Traço. Das 08 às 17, homem de todo dia. Um dia, leu Eliot, e teve ganas.

Prurido entre pulso e dedos.

Histeria no estalo da caneta.

Enjoo entre ventre e peito.

Pasmo. A folha em branco.

Numa terça-feira quente de março, paletó roto, gravata jogada no mancebo, olhar vidrado no branco da folha, que então sobrepuja os relatórios, um sabiá desavisado tromba, patético, na janela do escritório. Decerto, tomara o reflexo por um companheiro.

O homem olha a cena, balbucia, balança, se enlaça, sorri, se engasga e, há quem diga, nos entretantos dos entreatos, quase foi possível ouvir a menina dos seus olhos gritando Eureka num fio de brilho entre um se e um logo.

Bateu já frio a cabeça à mesa. Sorrindo.

Morreu com um poema entalado entre a bexiga e a batida do sabiá.

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o amor que tenho-te

                                 é cristal casto

 

e embora eu creia

                             que viceja o tempo

                                                           entre o pé e o passo

 

desculpa,

               senhora,

                             o romantismo gasto.

 

 

o amor que tenho-te

 

                                 é fogo fasto

 

e embora eu creia

                            que faísca é asa

                                                    entre o olho e o espaço

 

desculpa,

               senhora,

                             se de ti me afasto

 

 

o amor que tenho-te

                               é vulto em rasto

 

e embora eu creia

                           que singre luz

                                               entre vestígio e laço

 

desculpa,

               senhora,

                             se essa culpa arrasto

 

 

no amor que tenho-te,

 

por fim,

                                   gasto-me vasto

 

 

e embora eu creia

                           que esse metal desbasto

                                                                entre fogo e traço

 

 

desculpa,

               senhora,

                             esse amor besta em que me basto

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